Sabrina (1995): O Clássico com Harrison Ford
Por Beatriz Fontana
Há algo profundamente reconfortante no cinema de meados dos anos 1990. Era uma época em que as comédias românticas e os dramas corporativos se fundiam em narrativas elegantes, embaladas por trilhas sonoras orquestrais e figurinos de alta costura. No centro desse movimento estético e nostálgico está Sabrina, o remake dirigido por Sydney Pollack que chegou aos cinemas no final de 1995 e marcou as telas de 1996. Embora a sombra do clássico original de 1954 de Billy Wilder (com Audrey Hepburn e Humphrey Bogart) fosse gigantesca, a nova versão conquistou seu próprio espaço no coração dos cinéfilos, impulsionada principalmente por uma escolha de elenco inspirada: Harrison Ford no papel do pragmático Linus Larrabee.
A Difícil Missão de Recriar um Clássico
Muitos críticos da época questionaram a necessidade de refazer uma das obras-primas de Billy Wilder. No entanto, Sydney Pollack entendeu que os anos 90 exigiam uma sensibilidade diferente. A Cinderela moderna não podia ser apenas uma jovem passiva; ela precisava de agência, de uma carreira e de uma visão de mundo expandida. Julia Ormond assumiu o papel-título com uma beleza serena e uma vulnerabilidade inteligente, interpretando a filha do motorista da poderosa família Larrabee que viaja para Paris como uma jovem tímida e retorna como uma fotógrafa de moda deslumbrante e autoconfiante.
O Linus Larrabee de Harrison Ford: Rabugento e Apaixonante
O grande triunfo do filme reside na desconstrução da persona de Harrison Ford. Conhecido mundialmente como o herói de ação durão de Indiana Jones e Star Wars, Ford entregou em Sabrina uma performance sutil de comédia romântica. Seu Linus Larrabee é um homem de negócios obcecado pelo trabalho, frio e calculista, que decide seduzir Sabrina apenas para afastá-la de seu irmão mais novo, o playboy David (vivido com leveza por Greg Kinnear).
A magia do roteiro se revela quando o plano de Linus começa a falhar porque ele próprio se apaixona. Ver as defesas de um homem tão rígido desmoronarem diante do charme de Sabrina é o motor emocional da narrativa. Ford utiliza pequenos gestos, olhares perdidos e uma entrega de falas seca, porém vulnerável, para criar um Linus que rivaliza — e para muitos, supera — a rigidez excessiva de Humphrey Bogart no original.
Paris, Nova York e a Estética do Conforto Visual
Assistir a Sabrina hoje é fazer uma viagem no tempo direto para o ápice do design visual dos anos 90. A cinematografia transita perfeitamente entre a opulência fria de Long Island, os escritórios de vidro espelhado de Manhattan e o romantismo chuvoso de Paris. A trilha sonora de John Williams, indicada ao Oscar, envolve o espectador em uma atmosfera de sofisticação que o cinema contemporâneo raramente consegue replicar. É um filme que conforta os olhos e a alma, um exemplo perfeito do "comfort movie" que buscamos em dias cinzentos.
O Legado Trinta Anos Depois
O filme não foi um estrondo imediato de bilheteria na época, mas o tempo foi extremamente generoso com ele. Hoje, Sabrina é celebrado como um testamento de uma era onde Hollywood investia em diálogos inteligentes, desenvolvimento real de personagens e romances que se construíam na convivência e na troca intelectual, e não apenas na atração física imediata. A transformação mútua de Sabrina e Linus — ela encontrando seu valor próprio e ele redescobrindo sua humanidade — continua sendo uma das jornadas românticas mais maduras e satisfatórias do cinema moderno.
Sobre Beatriz Fontana
Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.
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